segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fora do orçamento

Um orçamento é o plano financeiro estratégico de uma administração para determinado exercício. Em tese, é a ferramenta que as empresas usam para determinar quanto esperam faturar e, também, quanto pretendem ter de despesas e de investimento.

É justamente nessa época do ano, ao entrarmos no último trimestre, que a maioria das empresas começa a preparar seus orçamentos para o ano seguinte. E isso toma um tempo brutal dos funcionários, diga-se de passagem, tempo que nunca foi orçado no período anterior.

Salvo raras exceções, minha experiência como executivo e como fornecedor, descobri que os orçamentos, além de ocupar tempo, não servem para nada. E me explico.

Primeiro porque quase todos os orçamentos são peças de ficção. As receitas são infladas para atender as demandas dos acionistas. As despesas são previstas sabendo-se que não serão realizadas. Os investimentos então, nem se fale, afinal todo acionista acredita que investimento é sinônimo de dinheiro jogado fora.

Outro aspecto relevante é a forma científica como os orçamentos são feitos. Geralmente seguem a seguinte fórmula matemática : pegue a receita e jogue mais 10% (independente da economia, da situação de mercado ou do histórico da empresa), pegue as despesas e corte 15% (também sem nenhuma referência a fatores racionais), pegue os investimentos e disfarce entre os ítens de despesa.

O terceiro aspecto relevante é que, como foi feito nas coxas e sem nenhum rigor de planejamento, os orçamentos não são cumpridos. Sem investimentos e sem estrutura de recursos, ninguém consegue chegar às metas de receita. Como não faturam, o orçamento que existia vira pó, seja através das "revisões trimestrais", seja através do contingenciamento de despesas (vide o exemplo do governo federal com o atraso das restituições de IR).

Por outro lado, se o resultado da empresa é acima do esperado originalmente, começam a surgir sobras de orçamento. E, ao chegar no final do ano, as empresas se dedicam a torrar o dinheiro que contingenciaram durante o ano todo (inclusive através das famosas antecipações de despesas, comprando agora serviços que só serão entregues no exercício seguinte).

Uma corrente de financistas mais recente, criou a teoria da "Empresa sem Orçamento", "Budgetless", essas empresas seguem a premissa de não efetuarem um orçamento prévio para suas despesas e receitas em um determinado período, sendo assim, estarão susceptíveis a surpresas em seus controles orçamentários.

Como as surpresas existem com ou sem orçamento, entendo que a metodologia budgetless seria, pelo menos, menos hipócrita.

4 comentários:

Rubinho Osório disse...

Eu sempre achei que "budgetless" fosse o cara que não tem grana, renda, entradas e por isso não pode fazer despesas...

Volney Faustini disse...

Bem, nesse caso Rubinho, seria moneyless ou durangomore ;-)

Marcos Depresbiteris disse...

É uma pena que não encontrei um artigo, de uma associação americana, que reune diversos adeptos ao que o Volney comentou, sabiamente, na minha opinião.
É claro que ter um, estabelece principios e controles importantes para qualquer organização, mas realmente, como ele disse, só deveriam fazer orçamento aqueles que acham importante serem cumpridos, caso contrário, não deveria gastar energia com isso.
Se entenderem interessante, leiam sobre "Lean Management" e verão como tudo por ser menos burocrático e simples.

Parabens pelo bom humor do Volney.

Marcos Depresbiteris

Volney Faustini disse...

Marcos,
Além do que o Fabio citou - que são financistas e financeiros com uma visão muito mais apurada da realidade corporativa, há também um grupo inglês denominado Beyond Budget Round Table - http://www.bbrt.org/

No Brasil temos o Niels Pflaeging com o livro Liderando com Metas Flexíveis. Volto a comentar aqui assim que postar minha resenha.

Creio que essa contestação que tanto o Fabio como eu temos feito para o Marketing, tem extensões interessantes para a Administração como um todo e para a Liderança também.

Sinais dos tempos! ;-)