quarta-feira, 18 de março de 2009

Minhas duas turmas

Uma das boas crônicas do Luís Fernando Veríssimo é uma em que conta sobre um personagem, já não muito novo, que tem duas turmas. A turma "em pé” e a turma "sentada". A primeira é a dos colegas da mesma idade que, nos últimos tempos só se encontram em velórios e enterros (em pé). A outra é a de jovens com quem ele vai a bares, beber e papear (sentado).

Cada dia que passa tenho ficado mais impressionado com o distanciamento dos profissionais de marketing dos meios digitais. Sei que essa afirmação pode lhe soar estranha uma vez que esses mesmos profissionais geralmente são extremamente antenados com as novidades do mundo.

Não é verdade. Com exceção dos meus colegas que foram gerados profissionalmente dentro de computadores, quase todos os demais parecem estar cada vez mais longe do mundo dos bits e dos bytes, ainda que seus discursos sejam "muderninhos" e seus smartphones tenham tecnologia 3G.

Eu escrevo vários blogs, participo de cerca de duas dezenas de grupos de discussão na Internet, estou em algumas redes sociais. Os públicos, tanto dos blogs quanto dos grupos e comunidades, são bastante variados: professores (que, tradicionalmente, são pouco dados a computadores), pessoas com deficiência, pais, amigos das mais diversas profissões e, claro, marketeiros. Surpreendentemente são justamente estes últimos que menos interagem digitalmente.

Percebo isso também nos meus contatos pessoais. Em encontros, nas classes que dou aula, em reuniões. As pessoas alegam não ter tempo de ler os boletins online, poucos freqüentam lojas virtuais (quanto mais comprar nas mesmas, temendo que algum hacker clone seus cartões...) e se recusam a participar de sites de relacionamento (acham isso tudo muito popular, coisa de ralé).

Mas falam muito em convergência de mídias. Repetem que o futuro é digital. Carregam seus i-phones, compram máquinas fotográficas de 450 megapixels e alguns até usam o MSN para conversar com o colega da mesa ao lado. O que não significa que tenham deixado de ser analógicos nas suas interações.

Durante algum tempo atendi um cliente de uma empresa high-tech. Todos carregavam seus notebooks para baixo e para cima, em cada lugar se plugavam na rede. Mas cada vez que precisávamos conversar eles faziam questão de reuniões presenciais. Eram o modelo perfeito do profissional que se acha atual, mas não consegue se desvencilhar do passado.

Enquanto isso o resto do mundo interage remotamente. Já romperam a barreira do espaço e, cada vez menos o tempo é um fator restritivo - até porque os recursos digitais permitem que sejam multitarefas e mais coisas cabem dentro do mesmo período de tempo.

Eu admito que apesar de já ter passado pelo cartão perfurado, pelo PC-XT, pelas BBS´s, ter lido Negroponte na Wired e o Manifesto Cluetrain logo que foi divulgado, ainda estou muito atrás da minha turma digital, mas, ao mesmo tempo, tenho mais megahertz de velocidade que a minha turma analógica.

Esses, se continuarem acreditando que só discurso os mantém, vão ser atropelados pelas webs 2.0, 2.1, 3.0...E não vão sequer perceber o que foi que passou por cima deles.

Esse texto é distribuído exclusivamente em meio digital, o que significa que, no máximo, 10% do meu público vai lê-lo e não vai gerar nenhum comentário.


Publicado originalmente no excelente Coxa Creme, onde minha turma digital interagiu loucamente.

6 comentários:

Felice Preziosi disse...

Fábio, como profissional de marketing há mais de 25 anos, com pesar, sou obrigado a concordar com você.
Vivenciei situações que arrepiam o bom senso.
Já ouvi declarações do tipo: "Pra que um site? Nosso público ainda é do tempo da maquina de escrever elétrica. Eu tenho um computador há anos e devo ter ligado apenas umas 5 vezes"
Mordi a lingua para não dar uma resposta à altura.
Infelizmente, é a realidade.
Experimenta fazer uma enquete sobre boozmarketing e vai ter uma coleção de piadas.

Felice Preziosi disse...

Desculpe a duplicidade, mas não podia deixar de compartilhar estas noticias:
Compras online: R$ 8,2 bi em 2008
Crescimento em comparação a 2007 foi de 30%; 13 milhões de brasileiros compraram pela internet.
19% dos consumidores que fizeram compras pela web em 2008 tinham mais que 50 anos, número superior aos anos anteriores.
Fonte: EBIT e HSM

Lou Mello disse...

Oh! Não esquenta. Pense no outro lado. Assim, a concorrência fica menos intensa, afinal a clientela, certamente, dará preferência ao marketeiro antenado enquanto a turma da IBM elétrica seguirá a ver navios. Falando nisso, meu corretor acabou, cê tem algum sobrando aí?

Volney Faustini disse...

Hoje ouvi pela primeira vez a expressão: 'os pontos cegos das instituições', referindo-se a áreas e mudanças que o radar das corporações não conseguem detectar.

São áreas sombreadas onde algo de fato e de grande importância está se transformando - independente do desejo da empresa.

Anônimo disse...

Fábio, eu li e comentei ; )

(lembrança do jantar dia 07)

Forte abraço e estou de acordo tb

M. le Moulin

Fábio Adiron disse...

O mais interessante desses comentários é só um dos comentaristas tem menos de 50 anos.